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Comentário Exegético – João 10,31-42

 O trecho de Jo 10,31-42, pertencente ao Evangelho de João, apresenta um dos momentos mais densos e dramáticos do confronto entre Jesus e as autoridades religiosas de seu tempo. Trata-se de uma passagem em que a revelação da identidade de Cristo atinge um ponto culminante, ao mesmo tempo em que a resistência dos seus interlocutores se torna mais explícita e violenta. A tentativa de apedrejamento não é apenas um gesto impulsivo de ira, mas a expressão concreta de uma rejeição teológica: os judeus compreendem a reivindicação de Jesus e, precisamente por isso, a rejeitam.

Para compreender adequadamente este texto, é necessário situá-lo dentro do contexto mais amplo do capítulo 10, especialmente o discurso do Bom Pastor. Nesse discurso, Jesus afirma uma relação íntima e única com o Pai, culminando na declaração: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Esta afirmação é o verdadeiro pano de fundo do episódio que segue. Assim, quando os judeus pegam pedras para apedrejá-lo, não se trata de um mal-entendido, mas de uma reação direta a uma afirmação que, segundo a compreensão deles, constitui blasfêmia.

A Lei judaica, especialmente conforme Lv 24,16, prescrevia a morte por apedrejamento para quem blasfemasse contra o nome de Deus. Portanto, a atitude dos judeus não é arbitrária, mas fundamentada em uma interpretação rigorosa da Lei. No entanto, o ponto central da controvérsia está na identidade de Jesus: ele não apenas fala de Deus, mas fala como alguém que partilha da própria realidade divina. Ao dizer “Eu e o Pai somos um”, Jesus ultrapassa os limites de um profeta ou mestre, situando-se no âmbito da divindade.

A resposta de Jesus à tentativa de apedrejamento é, ao mesmo tempo, surpreendente e profundamente pedagógica. Em vez de recuar ou responder com agressividade, ele pergunta: “Por qual das minhas obras boas me quereis apedrejar?” Essa pergunta desloca o foco da acusação para o testemunho das obras. No Evangelho de João, as “obras” de Jesus não são meros milagres no sentido espetacular, mas sinais (semeia) que revelam sua identidade e sua missão. Elas são manifestações visíveis de uma realidade invisível: a comunhão entre o Filho e o Pai.

A resposta dos judeus é reveladora: “Não queremos te apedrejar por causa das obras boas, mas por causa de blasfêmia, porque sendo apenas um homem, tu te fazes Deus.” Esta declaração é teologicamente significativa, pois demonstra que os interlocutores de Jesus compreenderam corretamente o alcance de suas palavras. Eles não estão confundidos; ao contrário, interpretam com precisão a reivindicação de Jesus. O problema, portanto, não é de compreensão, mas de aceitação. Eles reconhecem o que Jesus está dizendo, mas rejeitam a possibilidade de que isso seja verdadeiro.

Neste ponto, Jesus introduz um argumento baseado na Escritura, citando o Salmo 82: “Eu disse: vós sois deuses.” Este recurso é típico da argumentação rabínica, que parte de um texto reconhecido como autoridade para construir um raciocínio. No contexto original do salmo, a expressão “deuses” é aplicada a juízes ou líderes de Israel, que exercem uma função divina ao administrar a justiça em nome de Deus. Trata-se de uma linguagem analógica, não de uma afirmação de divindade no sentido pleno.

O argumento de Jesus segue uma lógica progressiva: se a Escritura pode chamar de “deuses” aqueles que receberam a palavra de Deus, quanto mais legítimo é chamar de “Filho de Deus” aquele que foi consagrado e enviado pelo Pai. Aqui, dois verbos são fundamentais: “consagrar” e “enviar”. O termo “consagrar” (em grego, hagiazo) indica uma separação para uma missão sagrada, enquanto “enviar” (apostello) remete à origem divina da missão de Jesus. Ele não é apenas alguém que fala de Deus; ele é aquele que vem de Deus e pertence a Deus de maneira única.

É importante notar que Jesus não está negando sua divindade ao utilizar esse argumento. Pelo contrário, ele está conduzindo seus ouvintes a reconhecerem a coerência de sua afirmação a partir da própria Escritura que eles aceitam. Trata-se de uma estratégia pedagógica que parte do conhecido para conduzir ao desconhecido, do aceito ao rejeitado. No entanto, essa argumentação não é suficiente para convencer seus interlocutores, pois o problema não é apenas intelectual, mas espiritual.

Nos versículos seguintes, Jesus retorna ao tema das obras como critério de discernimento: “Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se eu as faço, mesmo que não queirais acreditar em mim, acreditai nas minhas obras.” Aqui, percebe-se uma insistência na objetividade do testemunho. As obras de Jesus são um dado concreto, verificável, que deveria conduzir à fé. Elas são sinais que apontam para uma realidade maior: a presença do Pai no Filho.

A expressão “o Pai está em mim e eu no Pai” é uma das mais profundas da teologia joanina. Ela não indica apenas uma união moral ou uma concordância de vontade, mas uma comunhão de ser. Trata-se de uma unidade ontológica, que será posteriormente desenvolvida na teologia trinitária da Igreja. Neste sentido, o Evangelho de João oferece uma base sólida para a compreensão da divindade de Cristo, não como uma construção posterior, mas como uma revelação presente desde o início.

Apesar da clareza e da força do argumento de Jesus, a reação dos judeus permanece negativa. Eles tentam novamente prendê-lo, mas ele escapa. Este detalhe, aparentemente simples, possui um significado teológico importante: a “hora” de Jesus ainda não chegou. No Evangelho de João, a “hora” refere-se ao momento da paixão, morte e glorificação de Cristo. Até que essa hora chegue, ninguém pode tirar a vida de Jesus; ele a entrega livremente.

A retirada de Jesus para o outro lado do Jordão marca uma mudança de cenário e de público. Ele retorna ao lugar onde João Batista havia iniciado sua missão. Este retorno não é apenas geográfico, mas também teológico. João Batista desempenha um papel fundamental no Evangelho como testemunha da identidade de Jesus. Embora não tenha realizado sinais, seu testemunho foi verdadeiro e eficaz.

O contraste entre as autoridades religiosas e o povo simples é evidente nos versículos finais. Enquanto os primeiros rejeitam Jesus, os segundos reconhecem a verdade de seu testemunho. Eles afirmam: “João não realizou nenhum sinal, mas tudo o que ele disse a respeito deste homem é verdade.” Esta declaração revela uma fé baseada não em sinais extraordinários, mas na credibilidade do testemunho. É uma fé humilde, aberta, disponível.

O resultado é significativo: “E muitos, ali, acreditaram nele.” Este versículo encerra a passagem com uma nota de esperança. Apesar da rejeição, a missão de Jesus continua a produzir frutos. A fé não depende apenas da evidência externa, mas da disposição interior de acolher a verdade. Aqueles que se abrem ao testemunho e às obras de Jesus são conduzidos à fé.

Do ponto de vista teológico, este texto oferece uma síntese rica de temas fundamentais: a identidade divina de Jesus, o valor das obras como sinais reveladores, a autoridade da Escritura, a importância do testemunho e a liberdade da resposta humana. Ele mostra que a revelação de Deus em Cristo não se impõe de maneira coercitiva, mas se oferece como um convite à fé.

Do ponto de vista pastoral, a passagem interpela profundamente o leitor contemporâneo. Ela coloca em evidência uma tensão sempre atual: a possibilidade de reconhecer os sinais de Deus e, ainda assim, rejeitá-los. A atitude dos judeus não é apenas um dado histórico, mas uma realidade que pode se repetir em qualquer época. A dureza de coração, o fechamento à novidade de Deus e a resistência à conversão são desafios permanentes.


Por outro lado, o texto também aponta para um caminho de fé acessível a todos. Não é necessário realizar grandes feitos ou possuir conhecimentos extraordinários para crer. Basta acolher o testemunho, reconhecer as obras de Deus e abrir o coração. A fé nasce de uma relação, de um encontro, de uma escuta atenta.

Em última análise, Jo 10,31-42 nos coloca diante de uma decisão. Jesus não permite uma posição neutra. Sua identidade exige uma resposta: ou ele é rejeitado como blasfemo, ou é acolhido como Filho de Deus. Não há meio-termo. Esta radicalidade é própria do Evangelho de João, que constantemente apresenta a fé como uma escolha entre luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte.

Assim, este texto não é apenas um relato de um conflito passado, mas uma palavra viva que continua a interpelar cada leitor. Ele nos convida a examinar nossa própria atitude diante de Jesus: reconhecemos nele o Filho de Deus? Estamos dispostos a acreditar em suas obras? Ou permanecemos fechados, como aqueles que, vendo, não veem e, ouvindo, não ouvem?

A resposta a essas perguntas não é apenas teórica, mas existencial. Ela se manifesta na maneira como vivemos, nas escolhas que fazemos, na abertura do nosso coração à ação de Deus. O Evangelho não é apenas para ser compreendido, mas para ser vivido. E, neste sentido, Jo 10,31-42 permanece como um convite permanente à fé, à conversão e ao reconhecimento de Jesus como o verdadeiro Filho de Deus, enviado pelo Pai para a salvação do mundo.